Amor transcendental

Sílvia Mota

 

 

Desejas assustar-me com o bater estranho dessas asas...

Queres subjugar minh'alma e alcançar o transcendental sozinho.

Nesse momento fugaz, tu te tornas desarmônico

e o ar imperioso dos teus olhos ameaça espocar na escuridão.

 

Preciso alcançar teu vôo incauto por um instante apenas...

Não posso sentir-te oco, fútil, gotejando latente pavor.

Alcançarei teu brilho termântico e lascivo, enfiarei nas tuas as minhas penas

e, em libidinagem total, voarei contigo nesse Cosmo inigualável.

 

A estrela que persegues me pertence; o sol do qual tentas roubar um raio

é o mesmo que explode inteiro dentro do meu peito

e essa flor despetalante no teu bico, foi encontrada no jardim dos meus sentidos.

 

Queres assustar-me com o bater estranho dessas asas...

E essas garras? Também são tuas?

Não estavam presentes, no dia em que em lascívia total, me apertaste e abusaste.

 

Preciso alcançar teu vôo incauto por um instante apenas...

Esse universo inarmônico não é o mesmo que nos ensinaram a sentir.

Tua primavera não está fazendo flores, nem teu verão o calor;

o outono esqueceu sua função e o inverno está ardente e febril.

 

Equilibra tuas asas e vem alar comigo no mesmo espaço sideral;

vem aparar as garras, estabilizar os desequilíbrios e suavizar os sentimentos

para entrar comigo na perfeição rítmica das estrelas e dos mundos...

 

Apaga essa ave arredia de ti mesmo e me cria ao teu lado nessa tela.

Vamos ser dois corpos em desejo único.

Vamos ser paz...

 

 

Sílvia Mota.

Rio de Janeiro, [1986].