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Esta entrega inicia uma nova série que enfocará
esclarecer dúvidas freqüentes que surgem entre os que propagam o Budismo Nitiren
no ocidente. Durante muito tempo, os membros têm procurado assistência para
responder perguntas a respeito da visão budista sobre Deus, Jesus, Satanás, o
céu, etc. Durante os próximos meses, nosso foco será oferecer-lhes respostas
diretas.
Ao examinar sob a perspectiva budista palavras e
significados fundamentais da fé cristã, esperamos que esta série ajude aos
membros da SGI a transmitir da melhor maneira o Budismo Nitiren aos seus
familiares e amizades cristãs. Esperamos também ajudar aos membros com
antecedentes culturais cristãos a compreender melhor o Budismo Nitiren, as
semelhanças e diferenças deste Budismo com o Cristianismo, e igualmente
esperamos que o resultado seja uma melhoria na eficácia da prática budista. Além
disso, desejamos estabelecer pontes que ajudem os cristãos e não-membros em
geral a compreender melhor e criar vínculos com o Budismo, e talvez para alguns
facilitar-lhes a transição para a prática do Budismo.
Porém, antes de começar, gostaria de oferecer
algumas explicações para esclarecer o contexto de nossa análise.
Primeiro, nos focaremos no que acreditamos são
princípios do Cristianismo geralmente aceitos, sem deixar de reconhecer que
dentro da fé cristã existe uma grande diversidade de opiniões. Dentro do alcance
desta série, seria impossível examinar plenamente todas as variantes da doutrina
cristã. Solicitamos a indulgência do leitor ou leitora pelas inevitáveis
generalizações no que refere-se a conceitos que obrigatoriamente nosso enfoque
tem que adotar.
Segundo, nossa intenção também não é assumir um
enfoque de refutação perante o Cristianismo. Não vemos a necessidade, nem o
valor, em tentar socavar uma tradição religiosa que tem ampla aceitação e é de
valor palpável. Ao mesmo tempo, não podemos evitar a evidência histórica dos
aspectos menos nobres desta tradição, aspectos que deram lugar à propagação
violenta e à Inquisição, assim como o uso desta tradição como ferramenta de
colonização e subjugação.
Finalmente, não assumimos uma posição exclusivista
– aquela de que o Budismo Nitiren é o único veículo capaz de levar seus
seguidores e seguidoras aos pináculos da verdade e à beira da felicidade. Ao
mesmo tempo que certamente acreditamos que existe uma única realidade máxima,
reconhecemos que as principais tradições religiosas, desde distintos níveis,
também buscam e entendem esta verdade.
E mais, a maioria das tradições religiosas
compartilham com o Budismo Nitiren a intenção de levar os praticantes para esta
verdade e para atingir o objetivo de conquistar o desenvolvimento humano, assim
como estabelecer uma comunidade harmoniosa. Portanto, ao mesmo tempo que não
reclamamos ser os únicos possuidores da verdade (de todos modos, quem pode
possuí-la?), o que mais nos interessa é o grau em que a tradição religiosa possa
cumprir com o que promete. Na realidade, quantas pessoas podem superar suas
tendências mais obscuras e viver segundo as doutrinas daquilo no que acreditam,
para assim transformar-se em pessoas de caráter genuinamente digno, com
intenções sábias, e comportamento benevolente? Serve uma prática religiosa em
particular como veículo maior ou como um veículo menor no caminho para
conquistar estas metas?
Desde há muito tempo, os budistas temos discutido
este ponto com o uso de analogias tais como a de uma balsa para atravessar o mar
do sofrimento, ou como a de um veículo para fazer a viagem para a iluminação.
Por exemplo, em vez de rejeitar como falsas os ensinos dos anciãos na fé, os
Budistas do Mahayana caracterizavam as práticas desses anciãos como práticas de
“veículo menor ”que somente podia levar a uns poucos – monges e monjas de muita
dedicação – para alcançar o objetivo da iluminação. Em contraste, com o enfoque
em desenvolver práticas para monásticos, leigos e leigas, e igualmente com a
intenção de incluir todas as pessoas na viagem, a designação de “veículo maior
”, ou Mahayana, aplicou-se às práticas e ensinos posteriores.
Neste contexto, todas as religiões principais são
veículos; alguns maus, alguns bons, e alguns melhores que os outros, mas
veículos em última instância. Nós também acreditamos que não existe veículo
maior que o Budismo de Nitiren Daishonin, o veículo capaz de incluir nessa
viagem a todas as pessoas, e não somente a uns poucos. Para a maioria daqueles
que ainda não estão familiarizados com o Budismo, a idéia de que a viagem para a
iluminação é algo que somente uns poucos podem fazer e que está reservado para
santos e sábios tem se convertido numa crença amplamente aceita. Isto sugere que
para a maioria das pessoas, a própria existência de um grande veículo para
alcançar a Budicidade e a felicidade absoluta é um conceito alheio que não faz
parte da experiência religiosa cotidiana. Porém, atualmente no Budismo Nitiren,
o veículo para fazer esta viagem está disponível para todas as pessoas, sem
importar gênero sexual, raça, condição social, nível de escolaridade ou
econômico, preferência sexual, nem idade.
E assim, com isto como pano de
fundo, comecemos a examinar nossa primeira interrogante.
Os budistas Nitiren acreditam
em Deus?
Como conceituamos Deus tem
grande peso na resposta a esta pergunta. Uma pesquisa informa que 99% dos
norte-americanos declara acreditar em Deus. Porém, não obstante a magnitude da
religiosidade nos USA, a ascendente taxa de criminalidade, crescente adição aos
narcóticos, epidemia de aflições mentais, e o reatamento da pena capital - para
só enumerar alguns sintomas - não são exemplos de uma sociedade espiritualmente
saudável. Por outra parte, os europeus apresentam um crescente vácuo - um vazio
com forma de deus – onde uma vez existiu Deus na consciência humana.
Algo que também parece estar
claro é que o conceito de Deus não é algo uniforme. Existem tantas versões de
Deus como pessoas que acreditam nessas versões, já que o conceito de Deus nunca
tem sido algo estático. Tal e como escreve Karen Armstrong em
A History of God
(Uma história de Deus): “Porém, parece
que criar deuses é algo que os seres humanos sempre têm feito. Quando uma idéia
de deus deixa de funcionar, simplesmente é substituída. Estas idéias desaparecem
tranqüilamente e sem grandes estardalhaços, tal e como aconteceu com a idéia do
Deus do Firmamento. Em nossos tempos atuais, muitas pessoas diriam que o Deus
adorado durante séculos por judeus, cristãos e muçulmanos tornou-se tão distante
como o Deus do Firmamento “.
Armstrong conclui como segue: “Os seres humanos
não podem resistir o vácuo e a desolação, e preencherão esse vácuo com a criação
de um novo foco para dar sentido às coisas. Os ídolos do fundamentalismo não são
bons substitutos para Deus. Se devemos criar uma vibrante nova fé para o século
21, talvez deveríamos ponderar a história de Deus para extrair algumas lições e
alertas.
Quando aos budistas nos
perguntam se acreditamos em Deus, tendemos a responder com nossa própria
pergunta: A que Deus se refere?
Trata-se do Deus de Abraham, o
Deus do Velho Testamento? Este deus era um pai rigoroso, criador, protetor, que
castigava e outorgava leis. Este deus também exigiu a Abraham que sacrificasse
seu filho, Isaac, e autorizou a conquista e chacina de milhares de pessoas.
Trata-se do Deus de Agustín, o Deus da Igreja
Cristã primitiva? Este era o deus da igreja poderosa, herdeira dos remanescentes
do império romano. Este Deus julgava à toda a humanidade, baseado no pecado
original de Adão. A religião baseada neste deus exige que nos consideremos como
fundamentalmente falhos e originalmente pecaminosos.
Trata-se do Deus de Michelangelo, um deus pessoal,
tal e como aparece pintado no teto da Capela Sistina? Este conceito de Deus
ajudou a desenvolver o humanismo liberal tão altamente valorizado no Ocidente.
Ajustou-se bem a uma Europa que despertava e expandia-se. Este deus ama, julga,
castiga, vê, ouve, cria e destrói, tal e como nós o fazemos. Este deus inspira.
Porém, isto também poderia significar um impedimento se presumimos que este deus
quer o que nós queremos, e detesta o que nós detestamos, o que validaria nossos
preconceitos, em vez de incentivar-nos a superá-los. O fato de que este Deus
“pessoal ” é homem (e usualmente da raça branca) tem criado profundos problemas
existenciais tanto para as mulheres, como para aqueles que não são de raça
branca.
Trata-se do Deus onipotente
que alguns teólogos acreditam morreu em Auschwitz? Para alguns, a idéia de um
Deus todo sapiente e todo poderoso é difícil de reconciliar com a maldade do
Holocausto. Isto é assim, já que se Deus é verdadeiramente onipotente, ele
poderia ter evitado essa desgraça. E se não conseguiu evitá-la, é impotente; e
se podia evitá-la, mas optou por não fazê-lo, não é benevolente.
Igualmente, nosso rápido
avanço no conhecimento científico sobre o universo torna aparente que Deus já
não está “lá em cima ”, nem “lá fora ”. Nos céus parece estar ausente a
protetora, julgadora, e zelosa presença divina, tal e como a concebia o mundo
antigo. Segundo John Shelby Spong, bispo episcopal e autor de
Why
Christianity Must Change or Die
(Por quê o Cristianismo tem
que mudar ou morre), o resultado disto é que dezenas de milhões de pessoas são
“crentes no exílio ” que têm perdido contacto com estas imagens de Deus, tal e
como são ensinadas desde os púlpitos tradicionais; porém, esses mesmos crentes
não estão preparados para abandonar o conceito de Deus em sua totalidade.
Tal e como uma serpente muda a pele no processo de
crescimento, no presente, somos testemunhas do crescimento de nosso conceito
coletivo de Deus, ao deixar para trás a antiga, e para alguns, inadequada noção
que tínhamos, enquanto nasce um novo conceito que ainda não está claro? Há quem
acredita que, de fato, nesta era pós-moderna uma nova visão de Deus está em
processo de emergir. Esta visão deixa para trás as imagens do teísta, histórico
e externo Deus das alturas, e as substitui por imagens com profundidade interna
de um deus que não está fora, mas que é parte integrante e fundamental de nós.
Esta é uma perspectiva muito consistente com o conceito budista da Lei Mística.
Esta Lei Mística é a entidade ou verdade máxima
que impregna todos os fenômenos no universo, e não é um ser personificado. O ser
humano e esta Lei máxima são supremamente inseparáveis – não existe brecha
alguma entre os seres humanos (todos, sem exceção) e esta idéia de Deus como uma
Lei Mística.
Esta verdade eterna e inalterável que reside
dentro de nós é a fonte onde podemos obter a sabedoria benevolente que concorde
com as circunstâncias cambiantes, assim como conquistar a coragem e confiança
para viver de acordo com essa sabedoria. É mística, e não mágica, já que a
totalidade desta Lei está além da conceição humana, e os esforços por
enquadrá-la em forma humana, por assim dizê-lo, somente a restringe e a limita.
É uma lei porque é manifestamente verificável nas vidas cotidianas de cada ser
humano.
Esta realidade máxima, verdade máxima, pureza
máxima, existe nas profundezas de cada ser humano. Por isto nós budistas
consideramos que toda pessoa é sagrada e está igualmente dotada com o potencial
de atingir a iluminação e ser maravilhosamente feliz. Não existe tal coisa como
nós aqui e eles lá, nem tampouco os fiéis e os incrédulos – todos somos filhos e
filhas de Deus, entidades da Lei Mística.
Enquanto outros olharam para os céus, Buda olhou
para dentro e encontrou a inestimável jóia da maravilha e o potencial humano.
Reconheceu que nós também somos feitos da “matéria prima ” divina da qual é
feito o universo. Simplesmente, esquecemos quem éramos.
Portanto, acreditamos em Deus? Segundo a maioria
das definições tradicionais, não. Mas em termos de como um crescente número de
cristãos conceitua Deus, acreditamos sim. Nosso nome para Deus é
Nam-myoho-rengue-kyo, a Lei Mística. Acreditamos que existe tanto “aqui dentro
”, como “lá fora ”, e que esta luz interior pode brilhar de dentro quando nos
conscientizamos dela e lhe abrimos nosso coração através do ato de recitar
Nam-myoho-rengue-kyo.
Certamente, haverá muita gente para quem esta
maneira de compreender Deus será inaceitável. Tudo bem. Mas também haverá muitos
– e segundo um estudo
esta cifra alcança algo como 25% de todos os adultos dos USA – para os quais
isto repercutirá. Gente que encontrará que realmente deixou de aceitar as
versões iniciais de Deus; que têm começado a conceber o universo de forma
diferente; e que o conceito de Deus como Lei Mística equipara-se com o
entendimento que têm alcançado por conta própria. Descobrirão, tal e como podem
testemunhá-lo a maioria dos membros da SGI-USA, que de maneira muito precisa, em
nosso ser espiritual a Lei Mística pode preencher o vácuo com forma de deus.
REFERÊNCIAS
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