Textos


 
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Augusto César Malta de Campo
- o fotógrafo da Cidade Maravilhosa -
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

 
Início do século XX. Em meio às reformas urbanísticas orquestradas pelo prefeito Francisco Pereira Passos, um fotógrafo se destaca: Augusto César Malta de Campos, que assume o projeto das elites e cujas imagens da cidade ajudaram a construir, para o Rio de Janeiro, o Rio da Belle Époque, a imagem de - vitrine do Brasil“.

Nascimento
Augusto Malta nasce em Mata Grande (AL), então chamada Paulo Afonso, a 14 de maio de 1864. Filho de Claudino Dias de Campos e Blandina Vieira Malta de Campos, Augusto César Malta de Campos, sobre sua família, mesmo em casa, com os filhos, Malta é sempre muito reservado, não falando sobre o passado (MOREIRA, 2012). Sabe-se apenas que um tio seu, Euclides Vieira Malta, foi presidente do estado de Alagoas entre 1900 e 1912.
Escrivão da cidade, o pai de Augusto Malta teve mais 18 filhos.

Infância e adolescência
Conforme pesquisa realizada pelo colecionador e escritor George Ermakoff, autor de “Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936”, o pai de Augusto escolhe-o para ser o sacerdote da família e cedo decide mandá-lo para a casa do padre Castilhos, padrinho de Malta, para completar sua alfabetização. Augusto Malta aprende também rudimentos do latim (MOREIRA, 2012). Não obstante, quer o destino que Augusto não siga a carreira religiosa. Em 1886, o padre falece e o rapaz, sem vocação para o sacerdócio (mais tarde, ele teria se declarado ateu), transfere-se para o Recife, onde ingressa no exército. Mas, ao fim do cumprimento do serviço, é dispensado.

Juventude
Jovem sensível, em maio de 1888, ainda na capital pernambucana, participa de comícios e passeatas em apoio à abolição da escravatura.
Em fins de 1888, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde se emprega na firma de Leandro Martins como auxiliar de escrita. No ano seguinte é promovido a guarda-livros. Republicano, participa dos acontecimentos de 15 de novembro de 1889, tendo empunhado o porta-estandarte do Centro Republicano Lopes Trovão, à frente dos populares que se dirigiam ao Paço Municipal então localizado na atual Praça da República (MOREIRA, 2012).
A partir de 1894, aproximadamente, Augusto Malta estabelece seu próprio escritório de guarda-livros, a “Casa Ouvidor” - situada na Rua do Ouvidor, esquina com Uruguaiana. A experiência tem curta existência. Segundo o próprio Malta —“[...] em oito meses perde 20 contos” e fica “[...] que nem caburé no oco do pau em dia de chuva”.
Opta por visitar a família em Alagoas. Ao retornar ao Rio traz, além de algum dinheiro, vários irmãos, para quem arranjaria colocação. Por seu lado, Malta passa a dedicar-se ao comércio de secos e molhados, instalando sua loja na Rua Larga de São Joaquim, hoje Avenida Marechal Floriano.
Novo insucesso leva-o a comerciar tecidos finos por amostra, atividade em que passa a empregar, no lugar do cavalo, uma bicicleta, com a qual percorre diariamente, e com maior rapidez, a freguesia. Além de permitir conhecer famílias importantes da cidade, a nova atividade possibilita-lhe adquirir um amplo conhecimento da cidade que, pouco mais tarde, se tornaria o alvo predileto de suas lentes.

Casamentos e filhos
Casa-se com Laura de Oliveira Campos (falecida em 1904), com quem tem quatro filhos: Arethusa (morta em 1913), Aristocléa, Luttgardes, Callestenis (1900-1919), e Aristógiton. Contrai segundas núpcias com Celina Augusto Verscheuren Malta de Campos, mãe de Dirce, Eglé, Uriel e Amaltéa. Pouco se sabe da biografia dos filhos de Augusto Malta que também se tornaram fotógrafos.

Troca da bicicleta por câmara fotográfica
Em 1900, Augusto Malta tem seu primeiro contato com a fotografia, ainda como amador. Tudo começa com a oferta feita por um dos seus fregueses, para trocar a bicicleta por uma câmara fotográfica. A partir desse momento, Malta passa a registrar não apenas amigos e familiares, mas também o Rio de Janeiro, cidade que, pelo menos até 1936, é alvo principal da sua lente. A experiência transforma-o no primeiro fotógrafo brasileiro a evidenciar visão jornalística dos acontecimentos (MOREIRA, 2012). Sem o meio de transporte, o ex-mascate é obrigado a ir até a casa dos clientes a pé. Assim, aproveita para fotografar a paisagem carioca, ensaiando a carreira futura (ÁVILA, 2009).

Primeiras fotos do Rio de Janeiro
Em 1903, no início da gestão de Francisco Pereira Passos, Augusto Malta é levado pelo amigo Antônio Alves da Silva Júnior, fornecedor da Prefeitura, para fotografar algumas das primeiras obras do novo prefeito. Entusiasmado com o resultado obtido pelas fotografias, Pereira Passos oferece a Malta o cargo de fotógrafo documentalista da Prefeitura, até então inexistente e que foi criado especialmente para ele. Como tal, sua função seria —fotografar a execução e a inauguração de obras públicas [...]; documentar logradouros públicos que teriam seus traços alterados; fotografar estabelecimentos ligados ao Município (escolas, hospitais, asilos), prédios históricos que seriam demolidos, festas organizadas pela Prefeitura (escolares, religiosas, inaugurações e comemorações cívicas), e ao mesmo tempo flagrantes do momento, como ressacas, enchentes, desabamentos etc.“ (BERGER, [1979?], p. 3).
Criado o cargo de fotógrafo, subordinado à Diretoria Geral de Obras e Viação da Prefeitura, Malta é contratado e assume as novas funções em 23 de junho de 1903. Daí por diante, transforma-se em fotógrafo oficial.
Em 1905, entusiasmado com os cartões postais, o fotógrafo filia-se à Sociedade Cartófila Emmanuel Hermann, como sócio-fundador nº 148. A partir dos anos de 1910 passa a editá-los, tendo criado para este fim a série Edições Malta (BELCHIOR, 1986, p. 11). Outras imagens são editadas como postais através da casa “Photo Rio Branco”.
Os primeiros cartões postais circulam no Brasil ainda em finais do século XIX. No Rio de Janeiro, a remodelação urbanística determinada pela administração Pereira Passos representa o auge da procura por esse tipo de imagem.
Em 1905, envia Mensagem ao Conselho Municipal, Pereira Passos, na qual enfatiza a importância da atuação do laboratório fotográfico da Diretoria de Obras e Viação, cujos trabalhos permitiriam às gerações futuras tomar conhecimento da exata proporção das reformas desenvolvidas por sua gestão (MOREIRA, 2012). Ainda no mesmo ano verifica-se a publicação do livro “Rio de Janeiro”, da autoria de Ferreira da Rosa, em edição oficial da Prefeitura. Este trabalho de registro visual da cidade se estende além da gestão de Pereira Passos, tornando-se prática comum entre os prefeitos, como André Gustavo Paulo de Frontin (1919-1920) e Carlos César de Oliveira Sampaio (1920-1922).
Com a saída de Pereira Passos da Prefeitura, o órgão é comandado por Francisco de Souza Aguiar, que faz oposição ao prefeito anterior. Malta sofre perseguição e seu cargo é extinto. A partir de então subordina-se à Subdiretoria de Serviços da Carta Cadastral, órgão da Diretoria de Obras e Viação. Descontente com a situação, em 1910 faz um requerimento no qual pede a contagem do tempo para a aposentadoria. Ainda assim, continua a trabalhar por conta própria. Três anos depois, o prefeito Bento Ribeiro, sucessor de Souza Aguiar, recria o cargo de fotógrafo e reconduz Malta à função, oferecendo-lhe o statusanterior. Neste meio tempo, publica o “Álbum geral do Brasil”, em edição do autor, onde apresenta imagens inéditas de cidades brasileiras, em especial do Rio de Janeiro (ÁVILA, 2009).
A convivência com Pereira Passos oferece a Malta oportunidade de entrar em contato com pessoas que a “nata da sociedade”, o que, mais tarde, quando abre seu próprio estúdio, serve de cartão de apresentação, garantindo muitos convites de particulares para registrar festas, casamentos, batizados, acontecimentos em geral, além de garantir contratos de prestação de serviços para firmas como a Companhia de Seguros Sul América e a Light.
Em 1925, um acidente com o flash quase lhe arranca o dedo, que ficou dilacerado. Foi preciso que os médicos fizessem uma cirurgia religando os tendões, procedimento raro na época. O mais comum era mesmo a amputação. Nesse caso, foi o prestígio de Augusto Malta, já bastante conhecido no Rio, que o livrou de perder o dedo (ÁVILA, 2009).
Augusto César Malta de Campos é, no Brasil, pioneiro no surgimento da reportagem ilustrada, tendo cedido a jornais e revistas da época - como Kosmos, Illustração Brasileira, Revista da Semana e Fon-Fon - fotografias de acontecimentos importantes.

Morte e Memória
Augusto César Malta de Campos morre no Rio de Janeiro a 30 de junho de 1957.
Ao longo dos quase 50 anos produz mais de 30 mil registros, entre negativos de vidro e chapas fotográficas, a maior parte perdida ou estragada pela ação do tempo ou à pouca valorização dada a eles pelas sucessivas administrações municipais. A pequena parcela que sobreviveu ao tempo encontra-se espalhada em diversas instituições de memória da cidade do Rio de Janeiro, como o Arquivo Geral da Cidade, o Museu da Imagem e do Som, Museu da República, e Casa de Rui Barbosa, além de empresas como a Light. São registros documentais que possibilitam a (re)construção da evolução do espaço urbano do Rio de Janeiro, assim como contribuem significativamente para a (re)construção de sua história œ política, social, cultural, arquitetônica e artística daquela que durante toda sua existência profissional foi a capital do país.
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Avenida Central (Rio Branco)
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Rua da Alfândega
 
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Morro do Castelo
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Rua Frei Caneca
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Avenida Central
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Avenida Beira Mar
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Bairro da Glória
 
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Praça da República
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Desmonte do Morro do Castelo
 
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Bonde
 
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Carnaval
 
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Rua da América
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Canal do Mangue
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Praça Floriano
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Bonde de Sepetiba
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Pão - de Açúcar
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Baía de Guanabara
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São Francisco - Niterói
 
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Corcovado
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Referências

ÁVILA, Janayna. Fotógrafo alagoano imortalizou o RJ. Gazeta de Alagoas, 27 dez. 2009. Caderno Especial.
BERGER, Paulo. Fotografias do Rio de ontem: A. Malta. Rio de Janeiro. Secretaria Municipal de Educação e Cultura, [1979?]. (Col. Memória do Rio. v. 7).
CARVALHO, Lia de Aquino. Francisco Pereira Passos. Boletim Informativo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. V, n. 11, 1982. p. 13-19.
IMAGENS. Capturadas na Internet, através do Google.
NOSSO SÉCULO. São Paulo: Abril Cultural, 1980. v. 1 (1900-1910).
O GLOBO. Rio de Janeiro. Edição Especial, 29 ago. 1936.
PORTAL AUGUSTO MALTA. A História de Augusto Malta e Família. Disponível em: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/augusto-malta 
MOREIRA, Regina da Luz. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio de Janeiro. Portal Augusto Malta. Disponível em: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/augusto-malta
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 01/02/2014
Alterado em 08/06/2018
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