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PSEUDÔNIMOS E HETERÔNIMOS
Sílvia M L Mota
 
Tema
 
Este texto diz respeito à inspiração essencialmente romântica da escrita decorrente da pseudonímia e da heteronímia.
 
Os termos em epígrafe, no Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa
 
Pseudônimo. Adj (pseudo+ônimo): 1. Que assina com um nome suposto. 2. Escrito ou publicado sob um nome suposto. Sm 1. Nome falso ou suposto. 2. Autor que escreve sob nome suposto.
 
Heterônimo. Adj (hétero+ônimo): 1. Designativo da formação do gênero por meio de palavra diferente. 2. Qualificativo dos termos diferentes que exprimem a mesma coisa. 3. Qualificativo de uma obra que um autor publica em nome de outrem. 4. Designativo de um autor que escreve em nome de outra pessoa. Sm 1. Autor que escreve assinando com o nome de outrem. 2. A respectiva assinatura. 3. Palavra diferente de outra, mas que exprime a mesma coisa, especialmente a que traduz exatamente outra de língua estrangeira.
 
Diferenças entre pseudônimo e heterônimo
 
O pseudônimo é um segundo nome para o autor e a partir do qual pode criar, revelar ou ocultar aspectos de sua identidade. Para Schittine (2004, p. 106): “Escondido atrás de seu pseudônimo, longe de sua própria autocensura, o autor descobre a(s) outras pessoas que podia ser, e então sua personalidade se desdobra. [...] O anonimato permite ao diarista livrar-se dos arrependimentos e investir nos aprofundamentos que quiser”
 
O heterônimo é um outro nome, fantasioso, com atributos e intenções próprias, individuais, diferentes das exibidas pelo seu criador. Ambos, possuem identidade própria. A heteronímia expõe gramática própria, com critérios próprios que delimitam o seu existir. É uma situação sui generis dentro da literatura e poucos autores se destacaram nesse campo.
 
Um autor só consegue ter um ou mais heterônimos relevantes depois que firmou sua própria personalidade literária. Não ocorre o contrário. Isso independe de idade, podendo ocorrer mais cedo ou mais tarde, na vida de um autor. Muitas pessoas "pensam" que desenvolveram um heterônimo, que em realidade não passam de pseudônimos, que parecem ser o próprio criador "dividido em setores".
 
Escolho a definição improvisada por Fernando Pessoa (1928), para finalizar este perfunctório tópico temático: "A obra pseudónima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterónima é do autor fora de sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.”
 
Pseudônimos e Heterônimos famosos
 
Diversos autores destacaram-se mundialmente através dos seus pseudônimos.
 
Em terras brasileiras: José de Alencar assinava uma coluna no Diário do Rio de Janeiro com o pseudônimo IG; Machado de Assis assinava os seus trabalhos como “Boas Noites”, “Victor de Paula”, “João das Regras”, “Dr. Semana” e até mesmo “Platão”; Nelson Rodrigues, colocou-se através dos pseudônimos “Suzana Flag” e “Myrna”, escritoras brasileiras das décadas de 1940 e 1950; Carlos Drummond de Andrade, no início da carreira, escolheu o nome Antônio Crispim e para escrever as suas críticas de cinema, adotava os pseudônimos “Mickey” ou “Gato Félix”; Milton Fernandes, o Millôr Fernandes, já usou o pseudônimo “Emanuel Vão Gogo”. No plano internacional: Mary Westmacott, cujo pseudônimo era “Agatha Christie”, teve cerca de quatro bilhões de cópias vendidas ao longo dos séculos XX e XXI e é considerada a romancista mais bem-sucedida da história da literatura popular mundial, tendo como principal tema romances policiais; o escritor estadunidense Stephen King escrevia sob o pseudônimo “Richard Bachman” e pretendia publicar as suas obras com mais frequência sem saturar seu nome no mercado, além de analisar se vendia por talento ou por sorte.
 
No campo da heteronímia, poucos se destacaram na Literatura.
 
A autora americana Meg Cabot, iniciou a sua carreira com um romance histórico chamado “A Rosa do Inverno” e assinou-o como “Patricia Cabot”, mas, atualmente, assume o nome verdadeiro; o escritor americano Daniel Handler, também músico e jornalista, através do heterônimo Lemony Snicket teve sua obra “Desventuras em Série” adaptado para o cinema e recentemente para um seriado da Netflix.
 
Fernando Pessoa é considerado o maior criador de heterônimos da Literatura, dentre eles, suas principais criações: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. O poeta e escritor, nasceu no dia 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, levou uma vida anônima e solitária e morreu em 1935, vítima de cirrose hepática.
 
De acordo com o verbete heteronímia, assinado por Fernando Guimarães (2010, p. 238), o fenômeno de “[...] desvio ou alteração textual” não é de todo inédito na história da literatura; contudo, encontrou um significado especial em Fernando Pessoa, uma vez que “afeta o sentido mesmo de sua obra considerada na sua globalidade.” Por esse motivo, segundo o especialista, o problema da heteronímia gera uma ampla discussão acerca do valor e do sentido que confere à obra de Pessoa, tendo, assim, interessado a muitos estudiosos, que abordam a questão sob os mais variados vieses.
 
Em Fernando Pessoa (1986, p. 96), a criação dos heterônimos é descrita como algo passivo, que ocorreu independentemente da sua vontade: “[...] o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim [...]. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.” Mas, Mikel Dufrenne (1969, p. 123) ressalta “[...] o caráter voluntário, laborioso” da criação, quando Fernando Pessoa (1986, p. 96) se coloca, aqui e ali, como artesão: criei, descobri, arranquei.
 
Experiência própria
 
No meu caso, poderia optar por "separar-me" em eus-líricos diferenciados. Criaria um com a visão estética do artista plástico, outro com os sonhos do poeta e outro com a racionalidade do cientista. Seriam pseudônimos e não heterônimos.
 
Através do pseudônimo, não saio de mim, não deixo de ser eu. Como heterônimo sou outra pessoa com a qual, muitas vezes, nem me identifico na vida real. Pseudônimos são partes de mim (fragmentos?). Heterônimos são pessoas inteiras, completas. Uso os meus pseudônimos para colocar-me no mundo. Meus heterônimos usam-me para expressar-se nesse mesmo mundo. Através dos pseudônimos posso esconder-me do mundo. Os heterônimos, através de mim, mostram-se ao mundo.
 
Referências
 
CARTA de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro sobre a Gênese dos Heterônimos. Disponível em: http://www.educacional.com.br/upload/dados/materialapoio/580001/8384666/Carta%20de%20Fernando%20Pessoa%20sobre%20os%20Heter%C3%B4nimos.pdf. Acesso em: 7 nov. 2018.
DUFRENNE, Mikel. Estética e filosofia. São Paulo: Perspectiva, 1972.
PESSOA, Fernando. Obra em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
PESSOA, Fernando. Tábua bibliográfica. Revista Presença, Coimbra, n. 17, dez. 1928. Ed. Facsimil. Lisboa: Contexto, 1993. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2700. Acesso em: 7 nov. 2018.
SCHITTINE, Denise. Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
 
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Cabo Frio, 28 de abril de 2010 - 22h54
Reeditado e ampliado em: 7 nov. 2018 - 19h17
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 07/11/2018
Alterado em 08/11/2018
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