Há dentro de mim
um mar que não repousa…
Ondas pretéritas
invadem o cais do agora,
e o vento, sem pedir passagem,
revolve as águas
que julgava serenas.
Pensamentos se entrechocam,
memórias alçam voo
e silêncios em zigue-zague
conversam no imo da alma.
Às vezes,
sou nau sem astrolábio
à mercê da correnteza
de afetos inefáveis.
Mas há, no âmago do turbilhão,
nesse céu-inferno,
um instante secreto
em que tudo se cala.
E então compreendo,
de pálpebras cerradas:
nem toda tempestade
irrompe para destruir.
Algumas apenas
revolvem as águas
para trazer à superfície
o que jazia oculto
no fundo de mim.
Há dentro de mim
um mar que não repousa…
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2026 — 2h45