Não, a expressão "A vida" não forma um cacófato nem constitui um vício de linguagem.
O receio é compreensível, mas vale notar a distinção entre a junção gráfica e a sonoridade real.
1— A semelhança gráfica: A junção do artigo "a" com o substantivo "vida" resulta nas mesmas letras da palavra ávida (a-v-i-d-a).
2— A diferença prosódica (acertamento tônico):
A vida é uma estrutura paroxítona, com a sílaba tônica em VI (a-VI-da).
Ávida é uma palavra proparoxítona, com a sílaba tônica em Á (* Á-vi-da*).
Como o pico de intensidade sonora e a cadência são completamente diferentes na pronúncia natural e na leitura poética, não há o efeito de confusão auditiva.
Um cacófato só ocorre quando a fusão de duas palavras vizinhas gera involuntariamente uma nova palavra com sentido cômico, vulgar ou ridículo (como em “por cada” —> porcada, “uma mão” —> mamão, ou a “boca dela” —> cadela).
Para exemplificar a pergunta inicial trago um verso de minha autoria: "A vida enreda a mente e trava o nobre braço".
Aqui, a dicção soa límpida, clássica e perfeitamente natural. Não ocorre o cacófato.
Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2026 — 21h05