Há quem conquiste um lugar na História por seus feitos. Outros preferem atalhos mais extravagantes: vestem a grandeza alheia na vã esperança de conferir nobreza à própria biografia.
Na carta em que se autoproclamou presidente eleito do Brasil Flávio Bolsonaro evocou Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e os opositores venezuelanos Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado. Reuniu personagens de trajetórias díspares sob o amparo de uma analogia que parece servir menos à História do que à própria vaidade.
Rui Barbosa legou ao país sua erudição jurídica; Charles de Gaulle, a liderança da resistência francesa; José Martí, a luta pela independência cubana. Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, por sua vez, tornaram-se figuras da oposição venezuelana em diferentes circunstâncias políticas. São trajetórias distintas, cujas particularidades não autorizam analogias automáticas. Afinal, a grandeza histórica não se adquire por contiguidade retórica, tampouco se transfere por empréstimo.
O mais curioso é a conversão de uma derrota eleitoral em epopeia particular. O revés, em vez de impor a necessária reflexão, converte-se em narrativa de perseguição e heroísmo, na qual o protagonista reivindica para si uma estatura que os fatos ainda não lhe conferiram.
Há, nessa encenação, uma confusão elementar entre ambição e grandeza, entre a importância de um acontecimento e a importância que alguém atribui a si próprio.
A democracia, porém, não se curva à presunção individual. O resultado das urnas traduz a soberania popular, não um detalhe descartável na biografia de quem se julga predestinado ao poder.
A posteridade não se comove com títulos autoconferidos nem se deixa seduzir por comparações grandiloquentes. A História distingue, com o rigor do tempo, os que a transformam daqueles que apenas ambicionam protagonizá-la.
Há uma diferença monumental entre entrar para a História e proclamar-se personagem histórico.
Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2026 — 21h47